Chamo-me António e dediquei toda a minha vida à minha esposa e aos meus filhos,  com os quais vivi durante mais de cinquenta anos.Agora que começo a perder as forças vejo-me confrontado com a doença de Alzheimer da minha esposa. Com os meus filhos fora de casa, fui o responsável por todos os cuidados da minha esposa nos últimos dois anos. Desde a medicação,  cuidados básicos e a alimentação. Estava esgotado. 

E no meio de tudo isto descobri que tinha um tumor na próstata. Não aguentava mais, tentei matar-me. Num dia de chuva forte tomei um monte de comprimidos mas entretanto apareceu o meu filho e ligou para o 112. Nas urgências do hospital fizeram-me uma lavagem ao estômago e voltei para casa. Mas os problemas não tinham simplesmente desaparecido. Os cuidados necessários com a minha esposa continuavam, os meus filhos continuavam longe e o dinheiro já começava a faltar.

Comprei uma corda, pu-la ao pescoço e se não fosse novamente o meu filho que como por milagre apareceu naquele instante, já não estaria aqui a contar a minha história.

Se tivesse uma pistola tinha-a usado, tenho a certeza. E tudo ficou bem pior quando tive que vender a casa que tinha contruído com tanto esforço. A minha esposa foi internada num lar de idosos contra a sua vontade e eu fui morar para um pequeno anexo construído ao lado da casa de um dos meus filhos.

O diagnóstico que me fizeram quando fui internado na psiquiatria depois de tentar enforcar-me fez com que os meus filhos me passassem a ver como um manipulador e mal-intencionado. Viram as tentativas de suicídio como um ato de covardia, e achavam que eu os estava a culpar por tudo. A relação deles comigo estava pior do que nunca.

Comecei a visitar todos os dias a minha esposa no lar, ela era a minha única razão para estar vivo, mas sentia-me um lixo, sentia-me um estorvo para os meus filhos.

Ninguém falava para mim sequer. Mas eu queria estar bem com eles, queria que eles percebessem que eu não era quem eles pensavam.

Até que um dos meus filhos conheceu a equipa do SIM e passei a ser acompanhado de forma regular. Fui também encaminhado para Centro de Dia da mesma instituição onde se encontrava internada a minha esposa. Voltamos a estar juntos, mas desta vez temos ajuda. Além disto, para me ajudar com os custos da alimentação agora recebo ajuda do Banco Alimentar e do Gabinete de Atendimento e Acompanhamento Social.

A minha família já me compreende e aceita melhor que eu estava muito doente. Hoje já consigo organizar o meu dia e sinto-me útil porque ajudo em pequenos trabalhos no Centro de Dia e no jardim na casa do meu filho. Aos 82 anos a minha vida voltou a ter sentido.

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