Ele disse aos meus pais que eu tinha perturbação de hiperatividade e défice de atenção. E a verdade é que eu não tinha sucesso na escola, tinha até algumas faltas disciplinares e não respeitava os professores nem os funcionários. Desde essa consulta, passei a tomar diariamente medicação para controlar os sintomas, as minhas notas até melhoraram e comecei a comportar-me melhor. Mas nos últimos tempos as coisas têm piorado. Desde que fui para o secundário as minhas notas voltaram a baixar e só me apetecia jogar computador quando chegava a casa.
Não me apetecia falar com ninguém.
Os meus pais estavam sempre a chatear-me porque não estudava e, claro, acabei por reprovar no 10º ano. Uma vez cheguei a casa e os meus pais levaram-me a outra consulta, a outro sítio, fui ao Gabinete SIM. Estive a falar com uma psicóloga e disse-lhe tudo o que sentia: que estava arrependimento de ter empurrado a minha irmã naquele dia e que tinha perfeita noção que às vezes me descontrolava, principalmente quando os meus pais me berravam.
Eles não entendiam que não gosto da escola, que não queria ir para a universidade. Obrigaram-me a ir para um curso que odiava e ainda por cima tinha a matemática mais difícil, nunca mais ia terminar aquilo.
Estava no início do 3º período do 10º ano do curso de Ciências e Tecnologias, quando fui à tal consulta com aquela senhora e os meus pais até me prometeram um carro quando terminasse o secundário.
Eu já nem queria saber do carro, eu só queria que me deixassem em paz, já não aguentava aquela pressão…
Até deixei de ter paciência para os meus amigos: deixei de ir café e era raro estar com eles fora da escola. Eles diziam que estava a bater mal, e tinham razão…
Depois da consulta, a psicóloga do Gabinete SIM falou com os meus pais e eles agora parecem entender-me e chegamos ao acordo de que eu iria terminar o secundário, mas num curso que eu gostasse. Isso era mesmo importante para mim. Também me ensinou a resolver as chatices com os meus pais de maneira diferente, já não há berros nem empurrões.