O café, amigo do nosso cérebro?

Contrariamente ao que possamos pensar, Portugal é o país da Europa onde menos se bebe café. Mas a verdade é que o café é a 2ª bebida mais consumida em todo o mundo (apenas ultrapassada pela água) e a cafeína é dos compostos mais bem estudados (Cappelletti, Piacentino, Sani, & Aromatario, 2015).

Acredita-se que a cafeína seja o psicoestimulante mais consumido no mundo, ingerida predominantemente sob a forma café. No entanto, há outros produtos que fazem parte da dieta de todos os países e que contêm cafeína como chás, chocolates, refrigerantes, bebidas energéticas, etc.

Neste sentido, são já muitos os estudos que mostram que a cafeína pode ter um efeito protetor para o nosso cérebro. A cafeína tem-se associado à redução do risco de declínio cognitivo. Revisões da literatura mostram que consumidores de cafeína tiveram, em geral, um declínio cognitivo menor, quando comparados com as pessoas que não ingeriam esta substância (Arab, Khan, & Lam, 2013). Este efeito protetor aparenta ser mais forte nas mulheres do que nos homens, segundo uma investigação da Universidade do Porto (Santos et al., 2010).

Assim, a ciência mostra que a cafeína aumenta a atenção seletiva (concentrando-se no estímulo relevante) e a atenção sustentada (manter a atenção durante mais tempo), melhorando o desempenho em tarefas simples (Einother & Giesbrecht, 2013), e parece certo que a cafeína tem um papel importante no aprimoramento e prevenção do comprometimento da memória, quer associado ao envelhecimento normal, como à perda de memória associada a doenças específicas. Há, pois, uma relação direta entre o consumo continuado de cafeína e um risco significativamente menor de desenvolver doenças degenerativas, como a doença de Alzheimer (Borota et al., 2014).

Do mesmo modo, tem sido estudado o papel da cafeína na prevenção de sintomas motores e perda de neurónios de dopamina na Doença de Parkinson (Cappelletti et al., 2015).

Para além disso, a cafeína pode trazer benefícios à saúde mental ao longo do tempo. Vários estudos demonstraram que pessoas que bebem entre duas a quatro chávenas de café por dia parecem ter menor risco de depressão e de suicídio, comparativamente com as que não bebem ou bebem café descafeinado (Lara, 2010; Lucas et al., 2011; Lucas et al., 2014).

Outras investigações sobre sintomas depressivos em participantes que receberam café com cafeína (150 mg de cafeína) ou café descafeinado (9 mg de cafeína) mostram que o café com cafeína aumentou o jogo cooperativo e a comunicação de sentimentos de tristeza, sugerindo, assim que a cafeína pode contribuir para melhorar o suporte social e aliviar os sintomas depressivos .

Embora não existam diretrizes formais, deixamos algumas recomendações em relação ao seu consumo:

  • Preferencialmente tomar café a meio da manhã ou no início da tarde, quando os níveis de cortisol baixam. Logo após acordarmos, o corpo produz cortisol, um estimulador de energia natural, por isso o corpo nesta altura não necessita tanto de cafeína.
  • A cafeína pode interferir no sono quando consumida até seis horas antes de dormir, reduzindo o tempo de sono e interferindo na sua qualidade. Por isso, pondere sobre quando tomar a última dose de café do dia (Drake, Roehrs, Shambroom, & Roth, 2013).
  • Quem não tem o hábito de beber café, deve considerar fazê-lo apenas quando precisa de aumentar os níveis de energia e atenção, por exemplo antes de uma palestra ou viagem longa de carro (Budney, Lee, & Juliano, 2015).

 

Por fim, é importante lembrar que a cafeína pode ter efeitos diferentes conforme as pessoas. Mesmo em pequenas quantidades, pessoas sensíveis aos efeitos da cafeína, podem sentir inquietação, insónia, aceleração dos batimentos cardíacos, etc. Além disso, pode ser contraindicada em pessoas com algumas doenças, como cardiovasculares ou determinadas perturbações de ansiedade.

Mais ainda, quando consumida de forma excessiva (acima 400 mg/dia), pode causar agravamento dos sintomas, incluindo ansiedade, agitação, dor de cabeça, fala e excitação descontroladas e pode mesmo tornar-se uma dependência, com efeitos muito nefastos para a saúde, embora com consequências menos assustadoras que as dependências de outras drogas (Evatt, Juliano, & Griffiths, 2016; Reissig, Strain, & Griffiths, 2009).

 

Referências bibliográficas:

Arab, L., Khan, F., & Lam, H. (2013). Epidemiologic evidence of a relationship between tea, coffee, or caffeine consumption and cognitive decline. Advances in nutrition (Bethesda, Md.), 4(1), 115-122. doi: 10.3945/an.112.002717

Borota, D., Murray, E., Keceli, G., Chang, A., Watabe, J. M., Ly, M., . . . Yassa, M. A. (2014). Post-study caffeine administration enhances memory consolidation in humans. Nature neuroscience, 17(2), 201-203. doi: 10.1038/nn.3623

Budney, A. J., Lee, D. C., & Juliano, L. M. (2015). Evaluating the Validity of Caffeine Use Disorder. Curr Psychiatry Rep, 17(9), 74. doi: 10.1007/s11920-015-0611-z

Cappelletti, S., Piacentino, D., Sani, G., & Aromatario, M. (2015). Caffeine: cognitive and physical performance enhancer or psychoactive drug? Current neuropharmacology, 13(1), 71-88. doi: 10.2174/1570159X13666141210215655

Drake, C., Roehrs, T., Shambroom, J., & Roth, T. (2013). Caffeine effects on sleep taken 0, 3, or 6 hours before going to bed. Journal of clinical sleep medicine : JCSM : official publication of the American Academy of Sleep Medicine, 9(11), 1195-1200. doi: 10.5664/jcsm.3170

Einother, S. J., & Giesbrecht, T. (2013). Caffeine as an attention enhancer: reviewing existing assumptions. Psychopharmacology (Berl), 225(2), 251-274. doi: 10.1007/s00213-012-2917-4

Evatt, D. P., Juliano, L. M., & Griffiths, R. R. (2016). A brief manualized treatment for problematic caffeine use: A randomized control trial. Journal of consulting and clinical psychology, 84(2), 113-121. doi: 10.1037/ccp0000064

Lara, D. R. (2010). Caffeine, mental health, and psychiatric disorders. J Alzheimers Dis, 20 Suppl 1, S239-248. doi: 10.3233/jad-2010-1378

Lucas, M., Mirzaei, F., Pan, A., Okereke, O. I., Willett, W. C., O’Reilly, É. J., . . . Ascherio, A. (2011). Coffee, Caffeine, and Risk of Depression Among Women. Archives of Internal Medicine, 171(17), 1571-1578. doi: 10.1001/archinternmed.2011.393

Lucas, M., O’Reilly, E. J., Pan, A., Mirzaei, F., Willett, W. C., Okereke, O. I., & Ascherio, A. (2014). Coffee, caffeine, and risk of completed suicide: Results from three prospective cohorts of American adults. The World Journal of Biological Psychiatry, 15(5), 377-386. doi: 10.3109/15622975.2013.795243

Reissig, C. J., Strain, E. C., & Griffiths, R. R. (2009). Caffeinated energy drinks–a growing problem. Drug Alcohol Depend, 99(1-3), 1-10. doi: 10.1016/j.drugalcdep.2008.08.001

Santos, C., Lunet, N., Azevedo, A., de Mendonca, A., Ritchie, K., & Barros, H. (2010). Caffeine intake is associated with a lower risk of cognitive decline: a cohort study from Portugal. J Alzheimers Dis, 20 Suppl 1, S175-185. doi: 10.3233/jad-2010-091303

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