Os benefícios do exercício físico na saúde mental

Não é novidade que o exercício físico é benéfico para a saúde e que a sua prática regular constitui um hábito de vida saudável. No entanto, talvez não saibamos que a prática de exercício físico constitui uma das formas mais efetivas de melhoria da saúde mental (Robinson, Segal, & Smith, 2017).

Pessoas com doença mental têm mais probabilidade de desenvolverem, em simultâneo, problemas de saúde física, como diabetes ou doenças cardiovasculares e, nos quadros mais graves e crónicos, estes problemas de saúde física associam-se ao aumento da mortalidade, comparativamente com pessoas sem doença mental.  De facto, o tabagismo, uma dieta pouco adequada e o sedentarismo são os fatores de risco modificáveis que são os principais responsável pelo aumento das doenças cardiometabólicas nesta população.

Neste sentido, cada vez mais se reconhece a importância da atividade física entre pessoas com doença mental. A evidência mostra-nos que níveis crescentes de atividade física podem ter um efeito duplo nos resultados da saúde, já que melhora, não só a saúde física, como também tem um impacto direto na melhoria dos sintomas associados à doença mental (Curtis et al., 2016; Stubbs et al., 2017; Vancampfort et al., 2017). Para além disso, juntamente com outras intervenções, a atividade física pode ser um grande aliado na perda de peso que muitas vezes surge com a toma de medicação psiquiátrica e que aumenta os fatores de risco de doenças (Curtis et al., 2016).

Entre muitos dos benefícios relatados na literatura, destacam-se os seguintes:

– Aumenta os níveis de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que tem um papel importantíssimo na manutenção e crescimento dos neurónios e participa na neuroplasticidade, que é essencial para a aprendizagem e memória (Seifert et al., 2010).

– Aumento da serotonina e libertação de endorfina, que contribuem para a melhoria do humor e estado de espírito e ajudam a que as reações ao stress sejam mais positivas (Fumoto et al., 2010).

– Foram relatados também efeitos ansiolíticos do exercício e ações que se relacionam com aprendizagem, mudanças no esquema corporal e atitudes ao nível da saúde, reforço social e estratégias para enfrentar problemas melhoradas, etc. (Stathopoulou, Powers, Berry, Smits, & Otto, 2006).

 

No que respeita aos benefícios específicos em determinadas doenças mentais, salientam-se os seguintes (Zschucke, Gaudlitz, & Ströhle, 2013):

Nas perturbações de ansiedade: o exercício desencadeia mecanismos de redução da ansiedade, que podem ser tão eficazes quanto as terapias cognitivo-comportamentais; reduz a tensão e a irritabilidade e pode diminuir a frequência dos ataques de pânico.

Na depressão: um largo número de estudos relatou a diminuição dos sintomas depressivos e uma melhoria evidente ao nível do sono em pessoas com depressão, com efeitos semelhantes a terapias cognitivas e medicamentosas. Exercício combinado (aeróbio + anaeróbio) e de resistência mostraram efeitos mais positivos do que apenas o aeróbio.

Perturbação Bipolar: pessoas com perturbação bipolar cansam-se mais rapidamente durante atividade física moderada. Estudos demonstram que exercício aeróbio regular pode ajudar no controlo do stress, ansiedade e depressão. Não se conhecem vantagens ou desvantagens em relação aos sintomas maníacos.

Psicose (por ex. esquizofrenia): redução da gordura corporal, IMC, bem como diminuição dos sintomas positivos (alucinações e delírios) e sintomas negativos (isolamento social, falta de energia, falta de motivação, etc.). Para além disso, planos de treino que combinam treino aeróbio e de força indicam aumento da funcionalidade que se relaciona com aumento do bem-estar psicológico. Mais recentemente, têm sido comprovados benefícios ainda maiores em pessoas com esquizofrenia praticantes de yoga.

 

Em conclusão, a maior parte dos estudos aponta como benéfica a prática regular de atividade físicas em pessoas com doença mental. Ainda assim, é necessária ainda mais investigação complementar nesta área e salienta-se sempre a necessidade de os planos de exercício/terapêuticos serem orientados por profissionais competentes e especializados.

 

Referencias bibliográficas:

Curtis, J., Watkins, A., Rosenbaum, S., Teasdale, S., Kalucy, M., Samaras, K., & Ward, P. B. (2016). Evaluating an individualized lifestyle and life skills intervention to prevent antipsychotic-induced weight gain in first-episode psychosis. Early Interv Psychiatry, 10(3), 267-276. doi: 10.1111/eip.12230

Fumoto, M., Oshima, T., Kamiya, K., Kikuchi, H., Seki, Y., Nakatani, Y., . . . Arita, H. (2010). Ventral prefrontal cortex and serotonergic system activation during pedaling exercise induces negative mood improvement and increased alpha band in EEG. Behav Brain Res, 213(1), 1-9. doi: 10.1016/j.bbr.2010.04.017

Robinson, L., Segal, J., & Smith, M. (2017). The Mental Health Benefits of Exercise, The Exercise Prescription for Depression, Anxiety, and Stress   Retrieved from https://www.helpguide.org/articles/healthy-living/the-mental-health-benefits-of-exercise.htm

Seifert, T., Brassard, P., Wissenberg, M., Rasmussen, P., Nordby, P., Stallknecht, B., . . . Secher, N. H. (2010). Endurance training enhances BDNF release from the human brain. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol, 298(2), R372-377. doi: 10.1152/ajpregu.00525.2009

Stathopoulou, G., Powers, M. B., Berry, A. C., Smits, J. A. J., & Otto, M. W. (2006). Exercise Interventions for Mental Health: A Quantitative and Qualitative Review. Clinical Psychology: Science and Practice, 13(2), 179-193. doi: 10.1111/j.1468-2850.2006.00021.x

Stubbs, B., Vancampfort, D., Rosenbaum, S., Firth, J., Cosco, T., Veronese, N., . . . Schuch, F. B. (2017). An examination of the anxiolytic effects of exercise for people with anxiety and stress-related disorders: A meta-analysis. Psychiatry Research, 249, 102-108. doi: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2016.12.020

Vancampfort, D., Firth, J., Schuch, F. B., Rosenbaum, S., Mugisha, J., Hallgren, M., . . . Stubbs, B. (2017). Sedentary behavior and physical activity levels in people with schizophrenia, bipolar disorder and major depressive disorder: a global systematic review and meta-analysis. World Psychiatry, 16(3), 308-315. doi: 10.1002/wps.20458

Zschucke, E., Gaudlitz, K., & Ströhle, A. (2013). Exercise and physical activity in mental disorders: clinical and experimental evidence. Journal of preventive medicine and public health = Yebang Uihakhoe chi, 46 Suppl 1(Suppl 1), S12-S21. doi: 10.3961/jpmph.2013.46.S.S12

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